Viajar e contar a viagem. O relato de viagem, ou diário, sempre foi peça fundamental para inserir o universo da estrada no imaginário societal. Foi através das cartas e dos diários de bordos dos antigos exploradores e navegadores que o desconhecido se tornou um lugar a visitar. A industria do turismo e o boom de pacotes de viagem tentam, hoje, reproduzir em uma escala diferente sensações conhecidas primordialmente pelos conquistadores de muitos séculos atrás.

Nossa Volta ao Mundo ainda não começou, mas o relato de viagem, o texto escrito ao longo dos quilômetros acumulados, é a razão de existência deste site. Nessas poucas semanas que nos restam antes do Dia D, pensar na maneira e na forma como reproduziremos nossas impressões tem ocupado boa parte de nosso tempo. Certamente esta não é uma discussão exaustiva e a estrada ditará seu manual de conduta – literária.
Primeiro, identitade: quem somos nos? Viajantes? Turistas? Acho que a escolha de um rotulo reduz sensivelmente a discussão. Podemos, em 2009, nos acreditar viajantes como Marco Polo? Tendo organizado todo o percurso, vistos,
vacinas, tendo lido à respeito de cada pais, nos difere do turista LastMinute? Se pensarmos nas atrações e nas atividades que gostariamos de fazer em cada destinação, não consigo nos colocar muito longe da massa que invade determinados pontos turisticos. Porém, se pensarmos no tempo que dispomos, nas possibilidades que uma viagem-livre nos proporciona, talvez nos sintamos mais proximos dos idolatrados viajantes. Ou seja, seremos turistas e viajantes o tempo todo! Se, de um lado, tentaremos evitar a superficialidade de um, dificilmente conseguiremos a profundidade de um antropologo, ou de um reporter dedicado a um assunto ou região. Ficariamos mais parecidos como mochileiro que faz a “imersão cultural de hostel”: é o turista que passa o dia no albergue de juventude com outros turistas de paises proximos e, quando perguntado, por que não sai pra fazer turismo, responde: – I’m here for the real thing. Sorry, mas se beber cerveja com canadenses num hostel de Bangkok is the real thing, I’m out! Humildade. Nossa meta é utilizar o tempo. Observar ao maximo e ir ao encontro dos outros. Reparar o pequeno, os detalhes do cotidiano, sem forçar uma integração na maior parte do tempo, impossivel.
Segundo, olhar: duas coisas a evitar: o deslumbre e a pretensão. O ultimo nos empurra a acreditar que somos os unicos, os pioneiros, que “vimos primeiro”, ou que nossa impressão é a mais perspicaz já vista. Nos não somos os primeiros a fazer uma Volta ao Mundo e muito menos a visitar os lugares para os quais rumamos. Como ocidentais, como brasileiro, nossas impressões estão bastante condicionadas a um certo codigo de conduta e de costumes. Por isso, não podemos acreditar na originalidade absoluta ou na perspicácia irrepreensivel de nossos relatos. Certo, o tempo pode colaborar para um olhar mais apurado. Mesmo assim, ele não será unânime. O deslumbre colaboraria para embaçar o texto. Não nos deslumbramos? Claro que sim! Quem não se emociona ao ver a Torre Eiffel pela primeira vez? Mas esse é um sentimento conhecido, compartilhado por muitos. Não quero dizer aqui que devemos ver as coisas com o mode blasé ON no máximo. Eu acredito que o deslumbre atrapalha o texto. Por essa razão, a menos que façamos poesia, uma distância entre o evento – a subida da muralha da China – e o relato – um post aqui no 2backpacks.com, deve ser cultivada. Porque a “visão mais linda do mundo” é a visão de todos.
Ultimo, o texto: “enquanto viajo não escrevo e quando escrevo deixo de viajar”. Foi mais ou menos isso que li num
texto pinçado de um link da blogoesfera. Qual é o objetivo de uma Volta ao Mundo? Viajar, oras! Bom e se viajar me impede de escrever, então as páginas ficarão em branco. Escrever é uma paixão que quero alimentar. Primeiro, pelo prazer de colocar no papel as impressões do dia e segundo, para dar noticias aos proximos. Porém, discordo do texto jornalistico para o relato de viagem. Acho que o melhor diario de viagem seria aquele escrito, não em prosa, mas em poesia. Simples, a viagem pertence ao sonho e so a poesia pode explicar o sonho. Uns poderão dizer que o jornalismo é realidade e esta é muito mais surpeendente e interessante que a ficção. Concordo. Apesar disso, penso que um relato preciso de uma experência de viagem é um relato incompleto. Fiquem tranquilos, nosso texto será em prosa. Mas como as estradas que percorreremos são sinuosas, permitam que nosso texto, também, não seja em linha reta.
Felipe Koch
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