Na vida de todo viajante – ou turista aguerrido – chega um momento em que não se pode postergar uma certa viagem: ao continente dos exploradores por excelência, a África.
Eu já tinha comido sopa de batatas fritas no deserto boliviano, dormido num vilarejo tibetano infestado de cães raivosos, presenciado o abate de cabras nas planícies da Mongólia. Mas até agora nunca tinha colocado os pés no continente berço da humanidade. Há alguns meses, estive em Marrakech, no Marrocos. Ainda assim, não estive na África.
Não se trata de uma incompreensão geográfica, ou de um texto sobre as cidades-ilha que não pertencem à continente algum. Marrakech e o Marrocos não ficam na África. Pelo menos, não na África do meu imaginário. Aquele continente que povoa a imaginação de todos : leões, girafas, elefantes, savanas, populações negras com seus rituais, vestuário e comida. Essa África existe, mas começa depois do Saara (pra quem vem da Europa).
O Marrocos, o Maghreb, a África do Norte pertencem a uma outra esfera de costumes e culturas. Uma esfera dominada pelo Islã como religião e o árabe, como língua. A África do Norte é o prolongamento ocidental do Oriente-Médio. Quem já esteve na Jordânia, na Síria, ou no Egito, viverá o Marrocos como mais um país e não como um novo país visitado. O cordão que começa no Marrocos e vai até o Iraque poderia constituir um continente a parte: a Arábia. Para ficar somente nos contornos linguísticos. Sem dúvida, existe uma diversidade de tradições e modos de vida ao longo dos países da África do Norte, Península Arábica e Ásia. Um tunisiano se julga completamente diferente de um argelino, por exemplo. O cuscus marroquino é muito diferente daquele servido na Argélia. A cozinha marroquina, por sinal, disputa com a libanesa, a honraria de melhor culinária do Oriente-Médio.
Por que teimamos em manter uma divisão de continentes baseada em pontos geográficos específicos? O Canal de Suez, dividindo assim a Ásia e a África. Mesmo se, de um lado e de outro, as pessoas são as mesmas, reivindicando uma importante unidade de credo além de uma língua comum (apesar dos dialetos e sotaques). Em uma época de uniões econômicas, de reivindicações identitárias, por que não repensar os continentes? Normalmente eles seriam cinco – sem contar a Antártida – na sua divisão mais simplista. Mas se redesenharmos os mundo de acordo com as pessoas de cada lugar, quantos continentes teríamos? De qualquer maneira, Marrakech – e o Marrocos – não ficam na África.















